abril 14, 2009

ainda que tudo isso soe por uma causa perdida
e seu olhar atravesse a minha garganta
é que de todas as pessoas que te cercam
coube justamente a mim: ver você ir, ver você chegar
com suas histórias de ouro e humilhações
há um lugar que você pensa em ir
um deserto perdido
e eu te pego por trás, meio por impulso, meio por intenção
você perde o caminho e se desencontra dos seus falsos cristais
eu grito da cozinha: ninguém te espera na porta
enquanto lapido flores fresquinhas
e você pinta o rosto nos nossos ritos de sedução
é que nós não sabíamos que o amor era para isso
tanta ternura esconde tanta vontade afobada
ninguém liga para o que faço, além de você
por isso eu insisto: vamos continuar aqui, nesse velho sofá de napa.

março 29, 2009

categóricos,
alguns meninos perambulam com suas camisetas rasgadas
em mantras estranhos, no meio da avenida paulista
escondem-se em suas capas de super heróis em farrapos

eu quero uma identidade secreta
uma janela para fugir de mim mesmo
para mergulhar no paraíso
logo ali, na próxima cabine telefônica
onde seus lábios não
reclamariam dos meus atrasos
e daríamos de comer aos nossos animais de papel domesticados

março 27, 2009

Como o amor pode viajar além das alturas
e das fraudes que ele mesmo se forja ser?
virando seus olhos para mim em desaprovação
como se eu fosse um cão malcriado e não entendesse a sua língua
e desligasse a luz da vida de um homem
sou mais um filho da sua causa perdida
é que nessa hora eu me emendo
e me esqueço do vício de cuspir pedras incandescentes
e andar burilando para trás
chorando pelos diamantes quebrados
perdidos pelo caminho
dessa busca inútil de fazer do passado o que realmente deveria ter sido
ainda que isso pareça cinzas em cima das cinzas de um vulcão morto
onde os fósseis dos animais extintos expõem suas carcaças

e não me importa que todos os tesouros tenham virado pó
olho para uma outra direção
o mar sempre muda
os barcos virados embalados
pela calmaria das águas que ocultam o delito dos ventos
há uma margem alheia que me força chegar
dispenso futuras correções
e uma luz dura revela algo nítido
parece ser uma cola para seu órgão partido
e eu sinto vontade de por em exposição
a metade desgarrada do meu rosto que ficou defeituosa

março 15, 2009

Tarde quente e eu estava totalmente puída. Risoflora me olhava, apenas olhava com alguma fala de banalidades, não lembro o assunto.

Eu não sabia sequer como começar a beber daquela água. Não que tivesse medos, nunca fui afeita a medos – Na verdade meu disco da Billie Holiday já estava arranhado na minha vitrola de vida. Era algo que não compreendo direito – qual o por quê de estarmos esquivas enquanto podíamos voar sobre o mais alto desejo do bosque permissível. Sim, ela ali tão gratuita, levemente alta de vinho doce e o Sol frito escorria em nossos corpos como uma gema no azul.

Poderíamos passar o restante da tarde com os demasiados de Clarice Lispector, Camille Rodin, Edtih Piaf, Chico Buarque e Caio F., qualquer um desses que nos habitasse por dentro do osso. Nada, absolutamente nada seria suficiente para acalentar o furor daquela fronteira de altivez e agonia. Os olhos dela embaçavam no ar, como se estivesse buscando algo, o fruto proibido.

E os meus pêlos do braço, ela logo percebeu quando eles se arrepiaram. Era justamente a terra que ela precisaria arar para se reflorir. Silêncio. Sim, não havia outra decisão e a espera era continuada para uma intenção adiante. Nós, agora não éramos. Estou extasiada e em plena velocidade de amor. Beijo. Estávamos emprenhadas de estrelas recém caídas.

Agora se lamenta e rememora a fotografia guardada numa agenda de época, são mais cinco anos passados de solidão, e, ao descolarmos em nossos devaneios percebemos um pouco mais a frente da febre, a outra a chuva porvir.

Risoflora era quase suave de risos e florescências pelo corredor. Nós, sentadinhas e comportadas próximas à vitrola antiga de Antenor, Maysa gira sua fossa cantando Dolores “Ah, você está vendo só, do jeito que fiquei, e que tudo ficou…” a voragem se criou como tentáculos de seios e bocas e pernas e braços e lábios e movimentos de quadris.

Rabiscávamos o chão com uma geometria que só pertencia às nossas intenções. Essa aritmética só compreensível para quem sente sede de água salgada. Oh, aquele ser amado, aquele ser amado… Um ritmo que eu não saberia distinguir nessas horas e ela me oferecendo sua dança e o néctar até o profundo mais profundo da minha garganta. Eu não tenho medo, Risoflora.

Ela é mais mar do que sou ilha.

Sim, foi por aquela avenida

dezembro 29, 2008

É que tentei dizer a ela, logo depois que viramos a esquina. Estávamos no carro, chovia o bastante para embaçar o pára-brisa. Sim, foi por aquela avenida que dobramos. Eu, meio desatento, pensava em outras coisas. É que depois de Casablanca, todas as cenas de separação e desilusão amorosa prescrevem a chuva como cenário principal. Ela dizia muitas coisas, algumas que eu deveria prestar mais atenção. Mas acontece que, aquela cena, a breve carta de despedida da Ilsa, a água escorrendo a tinta do papel, aquela carta chorava e eu chorava um pouco por dentro, também. Ela já dizia outras coisas, explicava-me que tinha sido naquela avenida, havia um restaurante bacana, um prato marroquino que eu ia a-mar. Eu não conseguia enxergar bem. Friccionei as mãos contra o vidro embaçado, que suava por dentro, mas tudo era em vão. Até que ela ficou em silêncio de vez. Talvez tenha percebido a minha desatenção, minha breve fuga pra Casablanca e a chuva que me chovia por dentro. De rompante, perguntei se estava tudo bem? Ela respondeu que eu não estava lá. Não estava e não estava. Que já estava de saco cheio de falar & falar para alguém com tão pouca paixão. O que adiantava restaurantes marroquinos, compreender a diferença entre carril e páprica se aquele papo estava qualquer coisa pra lá de Marrakesh? Estou aqui. É que um eu aqui me dói. Como explicar a história da carta que chorava a mesma chuva suada no pára-brisa do carro? Foi naquela avenida que me perdi. Eu precisava então revelar. Senti que a solidão tem cheiro e culpa. Eu conseguia sentir ambos; no mofo do estofado molhado do carro, no mormaço daquela pequena prisão sitiada. É um eu de mim que eu tentava em vão aproximar dela. Ficava um pouco intimidado. Mas eu deveria prosseguir adiante e cumprir a minha função original das águas. É que tudo de mim chora e sua. Ela estava em silêncio. O meu eu estava pequeno perto dela. Eu precisava fazer algo, sentia que havia um avião partindo, levando o meu amor para uma América feia e desajuizada. Eu ficaria em Casablanca, esperando a nevasca tropical ir embora do meu coração solitário. E assim. E foi assim, que, naquele momento revelador das nossas vidas, ela desligou o som e pediu para que eu parasse o carro. Ela queria descer ali mesmo. Ela era tão especial e seguir seu caminho, entre as poças e as tentativas frustradas em acender um cigarro molhado, era mais que um esboço literário, aquilo era liberdade. Estava eu em busca de uma compreensão. O meu eu precisava sentir aquele contraste dela rompendo a noite com seu vestido branco de feliz ano novo. Eu precisava então revelar eu, pedir perdão e rastejar nas poças imundas, se preciso fosse, para quebrar o fino cristal do meu silêncio. Pois aquilo que parecia tão inofensivo era um veneno mortal que me doía o peito, as vísceras e os ossos. Eu, antes de dizer amor, precisava saber dizer que estava ali, morrendo de agonia e solidão. Ela já tinha seguido por umas duas quadras dentro da noite escura. Depois que isso começou a acontecer é o que me assusta agora. Eu é voragem. Levantei e comecei a andar mais rápido e perdi o medo que ela dissesse que é porque é assim ou há uma estação nova no rádio ou o que preferia comida italiana. Eu fui dizer. Eu fui dizer a ela, com certo cinismo e completamente passível de perdão. É que meu eu tem um silêncio que não me serve mais. Fui impulsionado a dizer assim, por força das circunstâncias. Você é a vaidade que quero ter. É para você quem penteio os meus cabelos. É que atrás dessa papa amarga que se esconde atrás do meu silêncio, há um eu ardendo por você. Essas coisas, de alguma forma, vieram destinadas a fazer por uma entidade superior, um nirvana que sinto e suspeito ser o que chamam amor. Eu posso tocar ainda mais fundo. Ir bater de ombros e de cara limpa na frente do seu ódio. Eu posso enfrentar o seu ódio, se quiseres. Ainda assim que tudo isso não faça sentido algum. Ela aproximou-se devagar. Chovia uma chuva fina. Eu a observei caminhar. Sim, aquela deveria ser a despedida do meu eu, para a chegada de um eu ela, ela eu, em que a sua virtude fosse trazer a tona um novo caminho, que talvez não estejamos preparados. Embora ainda seja triste e sangrento o final e recomeço de um amor duelado, seguiríamos juntos, por aquela avenida, essa avenida aí, que ainda não aprendi o nome.

junho 10, 2008

Por essa rua que você me trafega
acalanto os meus sentidos
experimento um cigarro
e atrás da névoa de nicotina
vejo outro riso amarelo e
uma aurora desencantada.
Eu já tou de saco cheio
desse papo cool jazz

tão breve te mando
uma carta correspondência
e um convite para
brincar de cabra-cega
-furtar essas perigosas
experiências nos bolsos furados
meio ana c. meio caio f. meio hilda h.


vamos aprender um crime novo
e dançar rócks até bater as botas

amanhã
a palavra se precipita orvalho
pontada fina no peito
e o próximo passo que
ficará ao deus dará
cisco no olho
nesse solilóquio profético
o amor mendiga
miserável em farrapos
lamuriando algumas poucas
lágrimas de cebola

junho 7, 2008

Estou aqui, nesse mesmo ponto, parada há milênios. A árvore solitária que só dá um fruto proibido em todo seu ciclo seco, que nasce em um barro áspero e vasto de um paraíso que só é prometido no Velho Testamento. Estou aqui à sua espera. Despetalada e órfã nesse outono, aprendendo a comer pouco como tática sórdida para uma sobrevivência letárgica. É que eu sempre quis que você fosse a única presença do universo, que me fosse tão, mas tão próximo que eu pudesse, por um instante, esquecer de mim mesma porque você seria a presença da minha presença sem o medo de me ser. Eu preciso de você para crer em mim. Agora, como será sem a sua alegria discreta e desarmada? Não quero acreditar que existir será a minha única função de vida. É que tenho perdido aos poucos a capacidade de me espantar e crer nos falsos truques do amor, como se eu fosse, tristemente, extinta da minha morte. Afasto o milagre como alguém que faz as malas para a volta. É que nessa hora eu me desencantei. Sem a sua presença é não haver um modo de escapar daquilo que os antigos chamam nascer de novo. Vou abrir as janelas e esperar uma outra ausência chegar. Não deixarei a coisa pela metade, assim inacabada, como alguém que cansou de ir em busca do tempo perdido. Numa hora dessas, te ofereço o meu silêncio selvagem porque chorar é puro simulacro. Quem sabe você possa até chafurdar sua mão delicada nos meus cabelos e me dar o seu silêncio de cumplicidade, eu espero, eu espero, eu espero um dia te trazer pela insensatez, pelo devaneio e pela misericórdia desesperada dos que vivem a beira de.

maio 26, 2008

Me visto dessa noite suja
como se nunca tivesse sido
deixo pistas evidentes do meu pulsar
desistido de mudar o universo

é que tenho te amado
descontentado dos talos
das frutas das flores das ramagens que me sobram
quero a voragem de arrancar-te suas raízes
mudar os nomes dos seus ancestrais
raspar onde tudo aquilo que é seiva
fica osso e memória

eu amo mais assim
acontecendo pelo êxtase
tirano e soberbo
igual a um vivo
igual a um perigo de vida

cola teu peito no meu
deixa essas carnes de vontade própria
se misturarem ao som de sua batida piegas
antes que o silêncio consuma a hora da paixão
das cintilâncias de jóias falsas e ouros roubados

eu quero o teu sopro por dentro de mim
para contar os dias da minha época a partir do seu barro
meio silêncio meio canção
costurando couro por cima do que é inumano
para te encontrar no outro
contrafluxo
do amor. Jobiniano o meu Vício: “eu sei que vou te amar”.

maio 2, 2008

Constatei nesse momento que o meu cão não me segue mais. É uma tarde um tanto quente e sonolenta de uma febre inexplicável. São 16 e pouco, letárgico, desço as escadas para bater um suco de goiaba com leite. 39 graus. Sinto-me sem estímulo para escrever como quem se cansa de prosseguir. Posso ligar para ela apesar de não saber falar bem ao telefone, pareço sempre emburrado ou distante ou passo a falar pouco entre dois ou três silêncios interrompidos por um “tudo bem, como vai você?” Não. Como fazer as coisas mais humanas e como se apenas sentir de maneira humana bastasse e eu não precisasse ir além? Acontece que esses romances da tv são piegas demais para meu gosto e estou suficientemente desanimado para buscar um texto do Caio ou ouvir uma canção do Chico. Continuo no meu canto, com a minha rabugice delicadamente premeditada. Será que ela não entende a urgência de uma visita inesperada, numa tarde banal como essa, ela cantando e “dedicando todas as canções que eu ainda eu de ouvir”? Olhando assim para dentro, qual a importância de uma chuva torrencial numa tarde morna como essas? Enxergando bem fundo é tanta solidão, charco e arame farpado. Esquece aquele clipe do Roberto Carlos, little darling. Eu pensei em você com os dedos da minha mão e da minha insônia: eu preciso tanto te tocar, te contar, te… te qualquer coisa, respiro pouco mas esse ar é o mesmo que te atravessa nalgum lugar dessa cidade amorfa e sem poesia. Por baixo dessa crosta dura de lodo ressecado penso em você, aliás, pensar em você agora é minha natureza, é minha linguagem, ensaiando as primeiras sílabas para um pedido de socorro: quan-do-vo-cê-vem-me-ver?

abril 24, 2008

Allysson, atenda a porta.
(Mais uma vez, atenda a porta.)
Faz tanto tempo, meu Deus. É que me traio nas minhas memórias.
(Mais uma vez, atenda a porta.)
É isso que me aflige.
(Atenda a porta, imbecil).
Atrás da porta não deve estar a pessoa que me espera. Atrás da porta há um desconhecido que aguarda as minhas histórias. Agora ando me desapegando, entrando na minha alfa-ritmia-cardíaca dos honorários trabalhistas em ser-me.
(Abra essa porta de uma vez por todas).
Chove. Como será a tempestade no fundo do mar?
(Abra essa porta, essa será sua última chance).
Há aqui dentro alguma coisa silenciosa em mim que espera o retorno de Mariana. Não farei um movimento que não seja de flor.